Considerando como a doença é comum, como é tremenda a mudança espiritual que traz, como é espantoso quando as luzes da saúde se apagam, as regiões por descobrir que se revelam, que extensões desoladas e desertos da alma, a dor (que a doença tantas vezes trás) nos faz ver, como nos afundamos no poço da morte e sentimos as águas da aniquilação fecharem-se acima da cabeça e acordamos julgando estar na presença de anjos e harpas... quando pensamos nisto, como tantas vezes somos forçados a pensar, torna-se realmente estranho que a doença não tenha arranjado um lugar, juntamente com o amor, as batalhas e o ciúme, por entre os principais temas da literatura.
De facto a doença tem essa brutal e violenta capacidade... sequestra-nos todo um universo, que é nosso, varre-nos da memória os momentos felizes de toda uma vivência...e tudo começa com o pé direito à entrada do serviço de urgência de um qualquer hospital. Deixo de ser fulano e passo a ser um doente numa maca. E desenganem-se, também a doença nos promove, e se tirvermos esse infortúnio, deixamos de ser "o doente da maca" para passarmos o "doente da cama...". Como qualquer posto a que se é promovido também este dá direito a um novo uniforme, vulgo "pijama", igual a todos os outros naquelas redondezas, como se nos quizessem roubar aquilo que ainda nos agarra e nos sustenta... a identidade. E como qualquer operacional ou militar também ganhamos um novo nome - cama 25!
E foi assim que me foi apresentada Maria Manuela. Fui chamado para ir ver a "doente da cama 25". Uma mulher...não...uma senhora, com um sorriso aberto e uma simpatia que derrubavam as paredes do seu pequeno quarto. Por momentos senti-me eu debilitado, como um doente. Pediam-me que tratasse as dores daquela senhora. Uma mulher de 59 anos, mãe de familia, humilde, simples, terna e com uma cultura invejavel. Acompanhei-a diariamente. Tinham-me avisado que Maria Manuel não sabia o que tinha, não queria saber. Foi esta a gota que me fez transbordar de interesse por esta senhora. Não fazia sentido, alguem, como Maria Manuel, uma pessoa que parecia abraçar a vida como uma dádiva diária, que ela parecia absorver em cada fracção infima de tempo como é o segundo, tentando aproveitar e não desperdiçar nenhum, agora, demitir-se e entregar-se à doença..? Foi então que num dos dias que a visitei para auscultar as suas dores, enchi-me de coragem despi a vergonha e perguntei-lhe se sabia que doença tinha, se sabia o porquê das suas dores. Como era seu costume, deu-me a mão e sorrindo disse-me "os doutores sabem o que tenho e vocês sabem a melhor forma de me tratarem, quem sou eu para vos questionar". E logo ali ficou claro. Ficou claro que não precisamos que nos digam para sabermos o que sentimos. Maria Manuela tinha um cancro que se havia disseminado pelo seu esqueleto, eram essas as razões das suas queixas, das suas dores, daquilo que dizia sentir. Ao tirar as dores desta mulher descobri um conflito em mim...por um lado a felicidade por ter trazido calma e descanso e por outro, por ainda a distanciar mais da realidade da sua saude (ou falta dela). Quase de imediato me obriguei a pensar sobre a vida, a vida desta mulher a vida dos doentes (terminais) que tenho acompanhado e de facto a vida já é bastante penosa para que ainda a agravemos com proibições e obstáculos aos seus deleites. Por outro lado, tão arisca se mostra a felicidade que todas as portas por onde ela queira entrar devem permanecer escancaradas. E nesta forma de olhar acalmei em mim a ambivalência e o conflito.
Inevitavelmente, e apesar de não ter mais dores, Maria Manuela sentia-se pior, sentia que algo a consumia, ainda assim continuava a encher aquele quarto com o sorriso com que sempre recebia qualquer visita. Numa manhã em que fui (re)visitá-la, ouço uma grande agitação junto ao quarto para onde me dirigia. Ouço uma voz aflita duma enfermeira a pedir ajuda, "paragem na cama 25" ouviu-se em todo o corredor. Quando entro no quarto sentia-se o silêncio pesado no ar, a esperança e a vontade interrompidas por uma frase, um corpo inanimado no leito, que eu não reconheci. Passaram-se minutos, que não pareciam minutos, eram verdadeiros séculos de incerteza, impotência, passados entre arcos e arcos de solidão...quando de repente um "bip" se houve de novo na sala, o som de um coração que voltava a bater, como se Maria Manuel tivesse escolhido viver e tivesse interrompido a morte como só os Deuses podem.
A doença é um estorvo para o corpo, mas não para a vontade se ela não o desejar. O ser-se coxo é um estorvo para as pernas, mas não o é para a vontade. E nesse momento eu acreditava tanto na vontade que pensei que Maria Manuela poderia viver. A verdade é que esta nova vida durava breves minutos, e apesar dos esforços de todos naquela sala, Maria Manuela despedia-se...despedia-se de todos nós, da mesma forma que tinha entrado naquele quarto...Com um sorriso doce e terno que parecia agora, subitamente recuperar. Ser imortal é coisa sem importância. Excepto o homem, todas as criaturas o são, porque ignoram a morte. Assim é, Maria Manuela nunca olhou para a morte, nunca derramou um segundo que fosse nesse exercicio. E agora de olhos fechados, mas vivendo, vivendo em nós. Maria Manuela ensinou-me que só o olhar não mente e que todo o real é verdadeiro. À noite fechos os olhos e sonho, e no sonho tal como na realidade sinto uma mão e um sorriso, uma voz amiga tranquila e calma que me fala. Maria Manuela fez o que só alguns podem...Caminhará sempre comigo!