Sementes da descoberta

As sementes da descoberta flutuam constantemente à nossa volta, mas apenas lançam raízes nas mentes bem preparadas para recebê-las

Thursday, 13 December 2007

Maria Manuela - um nome ou uma cama...?

Considerando como a doença é comum, como é tremenda a mudança espiritual que traz, como é espantoso quando as luzes da saúde se apagam, as regiões por descobrir que se revelam, que extensões desoladas e desertos da alma, a dor (que a doença tantas vezes trás) nos faz ver, como nos afundamos no poço da morte e sentimos as águas da aniquilação fecharem-se acima da cabeça e acordamos julgando estar na presença de anjos e harpas... quando pensamos nisto, como tantas vezes somos forçados a pensar, torna-se realmente estranho que a doença não tenha arranjado um lugar, juntamente com o amor, as batalhas e o ciúme, por entre os principais temas da literatura.
De facto a doença tem essa brutal e violenta capacidade... sequestra-nos todo um universo, que é nosso, varre-nos da memória os momentos felizes de toda uma vivência...e tudo começa com o pé direito à entrada do serviço de urgência de um qualquer hospital. Deixo de ser fulano e passo a ser um doente numa maca. E desenganem-se, também a doença nos promove, e se tirvermos esse infortúnio, deixamos de ser "o doente da maca" para passarmos o "doente da cama...". Como qualquer posto a que se é promovido também este dá direito a um novo uniforme, vulgo "pijama", igual a todos os outros naquelas redondezas, como se nos quizessem roubar aquilo que ainda nos agarra e nos sustenta... a identidade. E como qualquer operacional ou militar também ganhamos um novo nome - cama 25!
E foi assim que me foi apresentada Maria Manuela. Fui chamado para ir ver a "doente da cama 25". Uma mulher...não...uma senhora, com um sorriso aberto e uma simpatia que derrubavam as paredes do seu pequeno quarto. Por momentos senti-me eu debilitado, como um doente. Pediam-me que tratasse as dores daquela senhora. Uma mulher de 59 anos, mãe de familia, humilde, simples, terna e com uma cultura invejavel. Acompanhei-a diariamente. Tinham-me avisado que Maria Manuel não sabia o que tinha, não queria saber. Foi esta a gota que me fez transbordar de interesse por esta senhora. Não fazia sentido, alguem, como Maria Manuel, uma pessoa que parecia abraçar a vida como uma dádiva diária, que ela parecia absorver em cada fracção infima de tempo como é o segundo, tentando aproveitar e não desperdiçar nenhum, agora, demitir-se e entregar-se à doença..? Foi então que num dos dias que a visitei para auscultar as suas dores, enchi-me de coragem despi a vergonha e perguntei-lhe se sabia que doença tinha, se sabia o porquê das suas dores. Como era seu costume, deu-me a mão e sorrindo disse-me "os doutores sabem o que tenho e vocês sabem a melhor forma de me tratarem, quem sou eu para vos questionar". E logo ali ficou claro. Ficou claro que não precisamos que nos digam para sabermos o que sentimos. Maria Manuela tinha um cancro que se havia disseminado pelo seu esqueleto, eram essas as razões das suas queixas, das suas dores, daquilo que dizia sentir. Ao tirar as dores desta mulher descobri um conflito em mim...por um lado a felicidade por ter trazido calma e descanso e por outro, por ainda a distanciar mais da realidade da sua saude (ou falta dela). Quase de imediato me obriguei a pensar sobre a vida, a vida desta mulher a vida dos doentes (terminais) que tenho acompanhado e de facto a vida já é bastante penosa para que ainda a agravemos com proibições e obstáculos aos seus deleites. Por outro lado, tão arisca se mostra a felicidade que todas as portas por onde ela queira entrar devem permanecer escancaradas. E nesta forma de olhar acalmei em mim a ambivalência e o conflito.
Inevitavelmente, e apesar de não ter mais dores, Maria Manuela sentia-se pior, sentia que algo a consumia, ainda assim continuava a encher aquele quarto com o sorriso com que sempre recebia qualquer visita. Numa manhã em que fui (re)visitá-la, ouço uma grande agitação junto ao quarto para onde me dirigia. Ouço uma voz aflita duma enfermeira a pedir ajuda, "paragem na cama 25" ouviu-se em todo o corredor. Quando entro no quarto sentia-se o silêncio pesado no ar, a esperança e a vontade interrompidas por uma frase, um corpo inanimado no leito, que eu não reconheci. Passaram-se minutos, que não pareciam minutos, eram verdadeiros séculos de incerteza, impotência, passados entre arcos e arcos de solidão...quando de repente um "bip" se houve de novo na sala, o som de um coração que voltava a bater, como se Maria Manuel tivesse escolhido viver e tivesse interrompido a morte como só os Deuses podem.
A doença é um estorvo para o corpo, mas não para a vontade se ela não o desejar. O ser-se coxo é um estorvo para as pernas, mas não o é para a vontade. E nesse momento eu acreditava tanto na vontade que pensei que Maria Manuela poderia viver. A verdade é que esta nova vida durava breves minutos, e apesar dos esforços de todos naquela sala, Maria Manuela despedia-se...despedia-se de todos nós, da mesma forma que tinha entrado naquele quarto...Com um sorriso doce e terno que parecia agora, subitamente recuperar. Ser imortal é coisa sem importância. Excepto o homem, todas as criaturas o são, porque ignoram a morte. Assim é, Maria Manuela nunca olhou para a morte, nunca derramou um segundo que fosse nesse exercicio. E agora de olhos fechados, mas vivendo, vivendo em nós. Maria Manuela ensinou-me que só o olhar não mente e que todo o real é verdadeiro. À noite fechos os olhos e sonho, e no sonho tal como na realidade sinto uma mão e um sorriso, uma voz amiga tranquila e calma que me fala. Maria Manuela fez o que só alguns podem...Caminhará sempre comigo!

Wednesday, 12 December 2007

Seguir um objetivo sem parar, esse é o segredo do sucesso. — Ana Pavlova


Distância e longa ausência prejudicam qualquer relação, qualquer amizade, qualquer cumplicidade? Por mais desgostoso que seja admiti-lo não sabemos. As pessoas que não vemos, mesmo os amigos mais queridos, aos poucos se evaporam no decurso do tempo até ao estado de noções abstractas, e o nosso interesse por elas torna-se cada vez mais racional. Por outro lado, conservamos interesse vivo e profundo por aqueles que temos diante dos olhos, nem que sejam apenas os animais de estimação. Tão presa aos sentidos é a natureza humana...Fará a ausência às relações o mesmo que o vento faz ao fogo..? apagando o mais ténue e ajudando a crescer o mais forte...?

Sunday, 9 December 2007

Momentos dum Amor



Nos transportes do amor, na conversa com a amada, nos favores que recebes dela, até nos mais extremos, vais mais em busca da felicidade do que à tentação de provar isso de que o teu coração agitado sente uma grande falta, um não-sei-quê de menos do que ele esperava, um desejo de algo, mesmo de muito mais. Os melhores momentos do amor são aqueles de uma tranquila e doce melancolia em que choras e não sabes porquê, e te resignas quase na quietude a um infortúnio que desconheces. Nessa quietude, a tua alma está quase cumulada, e quase sente o gosto da felicidade. Assim como no amor, que é o estado da alma mais rico de prazeres e ilusões, a melhor parte, a via mais correcta para o prazer e para uma sombra de felicidade é a dor. E é essa condição tantas vezes imposta, auto-imposta e que tu agora impões. Tens esse direito, ainda que não tenhas consciência que não te ajudará a sentir mais e melhor. Mas precisas e eu compreendo isso. Também quero que tu percebas mais à frente e que ao olhar para trás não duvides.

A Perturbação do Último Acontecimento


A vida de uma pessoa consiste num conjunto de acontecimentos no qual o último poderia mesmo mudar o sentido de todo o conjunto, não porque conte mais do que os precedentes mas porque, uma vez incluídos na vida, os acontecimentos dispõem-se segundo uma ordem que não é cronológica mas que corresponde a uma arquitectura interna.

Não existem amores feios nem prisões belas...

Dissertações de uma mente confusa e surpresa...nem sempre as sementes da descoberta são algo que queiramos ver dar caule e raiz. De facto de onde menos e quando menos se espera...brota a descoberta que pensava não ter espaço para existir, não ter espaço para acontecer. Mas aconteceu, porque não foste cuidada, não cuidaste. Quem ama cuida, trata, protege, ainda que por vezes não saiba como. Fizeste-me acreditar, ensinaste-me o que julgo impossivel alguem me transmitir...mas tu sem querer deste-me isso. E amo-te por isso...e por muito mais... Ensinaste-me que o amor se encontra nas diferenças. Um homem tem sempre medo de uma mulher que o ame muito, e tu sabes que eu sofria dessa estupida condição. Mas fizeste-me ultrapassar isso e sem temor. Ainda assim fomos capazes de deitar essa pedra preciosa, essa semente da descoberta, pela janela. Outra grande descoberta se seguiu...mais uma vez...o amor só encontra o seu significado no momento da separação. Nesta calma segura e certa, acreditando que esse amor é inderrubável e sabendo que a distância faz ao amor aquilo que o vento faz ao fogo, apagando o pequeno, inflamando o grande, permiti com uma calma imprópria de quem ama, que te afastasses de mim, seguro que essas palavras, eram ditas sem crença, eram ditas cheias de vazio, como se não fosse uma despedida.
Aprendi...de facto! Estava enganado...não quiseste continuar a sentir...a acreditar...não te censuro. A culpa é minha. Mas nada te dá direito à incoerência, à incongruência! Sobretudo eu exijo-te esse respeito, o meu amor exige-te isso. Compraste esta luta, se bem percebo e se o que dizes é verdade. Também ja a comprei...ha mais tempo que tu...e perdi! Perdi essa guerra de lutar contra um sentimento. Perdi a duvida dum sentimento e conquistei a certeza doutro - o amor que sinto por ti. É tolo quem se quer opor ao amor, como se pudesse lutar com ele. Fui tolo uma vez, duas talvez...mas chega. e Cheguei a esse ponto, seguro e certo. Queria com tanta força...que só isso, pensei, seria o bastante... De facto não se encontra aquilo se procura mas o que se encontra. Nem mais. Mas encontro, encontrei, encontro-me...sozinho, e ja não te vejo. Queres essa guerra, queres lutar, queres sair vitoriosa. Se for amor o que tens em ti, não é doença que consigas ganhar em batalha. (todo o amante é um soldado: até Cupido tem os seus acampamentos). Mas nesse trajecto, nessa dura batalha morre sempre algo mais. Penso que nada é difícil para quem ama, e se realmente é essa a nossa condição, então...isso chega-me! Hoje aquilo que senti obriga-me a olhar para ti de uma forma que não reconheço, sobretudo que não amo. É algo que te distorce, que me aprte e me contorce, que memagoa. Não é essa pessoa que eu tanto quero. Não podes ser assim. Não acredito

Saturday, 14 April 2007

Um Brinde...


Fotografia de um brinde de aniversário...o meu
... registo com especial valor (entre várias) esta fotogafia!
Um brinde...sim um brinde aquelas pessoas que com uma só palavra despertam...despertam-nos para os pormenores da vida, aqueles que temperam a vida. Há pessoas que com um mero toque quebram a solidão, envolvem-nos numa festa e nos fazem sentir especiais... que com uma simples palavra fazem uma sinfonia que toca nos lugares labirinticos e recônditos do nosso ser.
Há pessoas que com a sua subtileza e inteligência nos transportam para mundos insondáveis ao olhar comum. Há pessoas que com o seu carinho nos abrigam das intempéries e nos ajudam a transpôr os obstáculos da nossa vida.
Um brinde...sim os amigos são de facto um brinde...um brinde que podemos encontrar nesta vida. Hoje faço também um brinde ao aniversariante. Sim, ao Ná! E é com pena que hoje não estive presente. A vida é assim mesmo...troca-nos as voltas. O importante é mantermo-nos por cá e em grande estilo, rodeados de amigos, sim os verdadeiros, aqueles que despem a camisola por nós, aqueles que se levantam às 4h da madrugada para nos ajudar a mudar um pneu...e que continuemos a presenciar o crescimento de cada um de nós enquanto individuos. Um forte abraço e sentido abraço a todos os meus amigos